Quando o Rio se chamava “Cidade Maravilhosa”

As mentioned once previously on this blog, I will sometimes post articles in their original. In this case, it’s due to the fact that the following is chock-full of references to Rio in the 30s and 50s (the article is from 2/11/1950). That being said, I may end up translating it, given time to decipher the dozens of old references.

Screen Shot 2014-11-30 at 12.29.00 PMLembranças tão remotas que mais parecem do tempo da vovó ♦ Balanço da primeira metada do século ♦ Como eram verdes as esperanças dos jornalistas!

Reportagem de ARMANDO PACHECO

Antes da guerra que trouxe as filas e tubarões dos lucros extraordinários, antes da criação de tantas policias que não prendem os gatunos não protegem o cidadão mas espancam o povo, antes de tantos “protetores” das escolas de samba, o Rio era na verdade uma Cidade Maravilhosa. Sem aspas nem turismo. E um carnaval era um carnaval. Nesse tempo remotíssimo dava gôsto morar no Rio. Não havia rádio-patrulha, mas o guarda-noturno sonolento na mansuetude da rua de bairro e o latido do “vira-lata” idormido num quintal suburbano, valiam como garantia da hoje desaparecida segurança pública.

Screen Shot 2014-11-30 at 12.29.45 PMAh! Rio de Janeiro! Um tostão valia um tostão, com êle se comia um pão, se pagava o bonde, se bebia um café e se completava mil e cem para a entrada do cinema. Já faltava água, os trens da Centra chegavam atrasados, alguém matava ou morria por amor e a vida continuava. O leiteiro botava água no leite; e o funcionário Barnabé sem o Dasp “pendurava” o aluguel da casa barata que sobrava prá todos e sem “luvas”. O “china” tomava o lugar do Saps. A cozinheira não se granfinizara. E as “babás” sabiam uma infinidade de histórias do “faz de conta”. “Seu Manoel da Venda fiava, fiado no circulo vicioso do vale de todo mês. O Rio ainda não se nivelara com a civilização dos “gangsters” e o que havia era ladrão da galinha. Em vez da “boite” ia-se ao circo e antes do cassino existia o “mafuá”. No “Zoo” só pontificava a macaca Sofia; chôpe a quatrocentos réis; bailes com gente no “sereno”; côrso; batalha de confete; pic-nic na Quinta; luar de Paquetá. Cerveja Cascatinha, falsas baianas vendendo falsos angus, banho na praia das Cuecas, mentiras cariocas. Carmen Miranda, Nassara, Noel Rosa, Assis Valente, primeira infância do rádio; partidas de futebol, Fausto e Jaguaré, os cracks do dia, tudo isso acontecia no Rio de Janeiro da geração ds trinta. Não, não se trata aqui de suspiros saudosistas de um tempo. São coisas de ontem, quando muito de ante-ontem.

GRANDEZA E MISÉRIA DO TOSTÃO

Os tempos estão mudados. Descobriu-se a inflação nos dicionários. E a alta dos preços nunca mais parou. Não há milagre que faça valorizar o dinheiro. Depois disso prá que salário mínimo? Antigamente cruzava-se a cidade no bonde de cem réis; lia-se o crime ou a desiludida que bebeu Lisol em qualquer edição de jornal; comprava-se a caixa de fósforos; cinco cigarros Yolanda-500; meia dúzia de bananas, um bolachão mata-fome, balas, chocolate, pé de moleque, cocada puxa, pinga com capilé, vários quilowats-hora. Um tostão significava unidade e o poder aquisitivo não dava tratos à bola. Com tão pouco quanta coisa se fazia! Taiobas da zona sul, gorgeta para garçons. Quando o tostão foi destronado o cartaz passou para 200 réis. E por duzentão bebia-se café sentado no Belas Artes ou Nice; comia-se pão com manteiga; cobria-se o percurso de um bondeco; pagava-se um telefonema urbano; selava-se uma carta; fumava-se meio maço de qualquer mata-rato ou um charutinho quebra-peito; virava-se uma batida paulista ou um copo de garapa de cana; e ainda o fósforo que havia subido. Por um níquel de 200 réis um estudante ia da cidade ao “Lamas” das pensões do Catete. E veio a fase dos 300; os bondes centrais; a caixa de fósforos incontaste; a segunda classe do elétrico ou do “Maria Fumaça”; qualquer ponto de seção; surgiram ou cafés em pé; o copo de Hidrolitol; e ainda por tal quantia namorava-se pelo telefone…

Screen Shot 2014-11-30 at 12.30.57 PM“VINTÉM POUPADO — VINTÉM GANHADO”…

Também êle, o níquel de 300 réis, se desvalorizou. Agora nada se pode fazer, porque o preço comum do bonde é de 400 réis (um cruzado, como se diz na Bahia, que valia quatro-centão). São bastante restritas as possibilidades financeiras dessa moeda. Dantes atravessava-se o Atlântico em direção a Niterói numa barca da Cantareira, que não mudou, mas que em troca subiu de custo e está pior. Com 400 réis se viajava para a Penha ou Cascadura; andava-se no ônibus da Excelsior de dois andares; tomava-se uma sopa de entulho açoreana; bebia-se um “martelo” de vinho do Rio Grande ou meio litro de leite também batizado. Em compensação os traficantes de guerra venderam as moedas graúdas aos quilos no câmbio negro do níquel puro. E durou pouco a orgia aquisitiva. No domínio dos 500 réis matava-se a fome com média, pão e manteiga; ia-se ao Méier em trem de primeira; iludia-se o estômago com um prato de arroz, com salsichas num Restaurante Automático, onde trabalhava noite e dia o presentemente professor, vereador e miliardário Luiz Gama Filho, diretor do Ginásio Piedade.

Screen Shot 2014-11-30 at 12.32.00 PMAntes do Dip fazer a prosperidade súbita de alguns diretores de jornais, custava 500 réis um número dos ditos. Também era o preço do chôpe com gôsto de chôpe nos melhores bares. E já foi generosa propina. Com 500 réis numa farmácia mandava-se às favas a dor de cabeça…Engulia-se uma laranjada na Galeria Cruzeiro. E dançava-se ao som de uma vitrola caça-niqueis. Na atualidade, com essa quantia por enquanto ainda se pede favor para telefonar. Nada mais. Decaiu muito a moeda ou a vida encareceu demais. Não ocorreu a evolução do tostão. Êste apenas morreu. Dia a dia assistimos: esplendor e declínio do pobre níquel de cem réis.

Screen Shot 2014-11-30 at 12.32.13 PMVIDA PELA HORA DA MORTE

Vivia-se muito barato. Meia porção no Reis ou Cairu valia 1.200, custo também da garrafa do “Telefone”. Filmes de “mocinhos” no Moderno, Íris, Lapa, Ideal, Paris, com entrada a 800 réis. Coalhada da meia-noite por 500 réis. Refeições avulsas nas pensões da rua da Carioca por dois mil réis com cifrão. Tinha-se o quilo de filé, feijão, arroz, café torrado, açúcar, tudo de primeira qualidade, sem mercado negro, sem CCP, sem Delegacia de Economia Popular, Coordenação, flagrantes e racionamentos. Fazia calor de rachar, mas uma cerveja “ABC” não ia a 1.500. Vencimentos e salários: nada além de 300 mil réis e ainda sobrava “algum” para a prestação do “turco” que, na realidade, era judeu. (Os granfinos, todavia, sempre se vestiram no “London Tailors”). Chapéu nunca se usava; sapatos quá-quá-quá calçavam meio mundo; recorria-se ao “prego”, ou ao belchior (chamado na gíria “brechor”), mas o velho burocrata se consignava em fôlha com o Cel. Mateus Noronha. Como eram verdes de esperança os vales dos jornalistas! Plantão de redação, corrida pelos distritos, Pronto Socorro mambembe, feijoada e cachaçada! Lembranças agora sòmente.

Screen Shot 2014-11-30 at 12.32.28 PMA guerra complicou tudo, a ganância muito mais. Estamos sofrendo as conseqüências do enriquecimento galopante de poucos felizardos contra a miséria de tantos infelizes. A carestia é fato quase que palpável. Bancos, comércio, indústria em falência e concordatas; crise, péssima administração; desemprêgo; fome, vida pela hora da morte; eis o panorama dos nossos dias. Tristeza das estatísticas; regime policial com assaltos à luz do sol. O mito da Saúde Pública; taxas de educação extorsivas; impostos, impostos, e impostos. Negociatas, Copa & Cozinha, “marmitas” no Sesi, Sesc e que tais…Pingentes em acrobacias, demagogia da casa própria; Boré, ditador supremo; Bendito “se”-coordenando-“se”; Silvestre rimando o malho; repete-se lugar comum: Góis em confusão; Getúlio esperando a vez, ri dos trêfegos candidatos. Êste um apanhado sucinto da hora presente e um confronto sem intenções da época que passou. Notas do caderno de repórter, colhidas sem compromisso. Uma reportagem que talvez chegue a propósito porque estamos iniciando a segunda metade do século. E dizem os saudosistas que “antigamente a escola era risonha e franca”.

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