The Poetry of Carnival

I discovered this unique illustration in the early February edition of Revista da Semana, 1932. To my surprise, the illustration was just half of the enjoyment on the page. The rest was in the poetic ode to Carnival that followed, which I shall type out here. The original, in miniature below, can be found full-size here.

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“O carnaval carioca tem uma pagina athologica na descripção magistral que d’elle fez o estylo fascinante de Graça Aranha em A Viagem Maravilhosa. Damol-o aqui como protophonia da grande loucura, por um dos nossos maiores mestres do verbo, em que, pela magia das palavras, o Rio symphoniza a sua alegria transbordante, celebrando o prodigio sonoro do seu maior triumpho.

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Maravilha do ruido, encantamento do barulho. Zépereira, bumba, bumba. Falsetes azuerinam, zombeteam. Viola chora e espinotéa. Melopéa negra, melosa, feiticeira, candomblé. Tudo é instrumentos, flautas, violões, récos-récos, saxofones, pandeiros, latas, gaitas e trombetas. Instrumentos sem nome inventados subitamente no delirio da improvisação, do impeto musical. Tudo é canto. Os sons sacodem-se, berram, lutam, arrebentam no ar sonoro de ventos, vaias, flaxons e aços, estrepitosos. Dentro dos sons movem-se as córes, vivas, ardentes, pulando, dansando, desfilando sob o verde das arvores, em face do azul da bahia, no mundo dourado. Dentro dos sons e das córes movem-se os cheiros; cheiro negro, cheiro mulato, cheiro branco, cheiro de todos os matizes, de todas as excitações e de todas as nauseas. Dentro dos cheiros, o movimento dos tactos violentos, brutaes, suaves, lubricos, meigos, allucinantes.

Tactos, sonso córes, cheiros que se fundem em gostos de gengibre, de mendobim, de castanhas, de laranjas, de boccas e de mucosas. Libertação dos sentidos, envolventes das massas freneticas, que maximam, gritam, tresandam, deslumbram, saboreiam, de Madureira á Gavea, na unidade do prazer desencadeado. Carnaval. Tudo effemina-se. Gloria da mulher. Ella, para ella e por ella. Inversão universal. Homens-femeas. Mulheres-machos. Retorno ancestral ao culto lunar, ao mysterio nocturno. Desforra da femea. Ressureição das bacchantes, das bruxas, das diabas. Missa negra, tragedia negra, magia negra. Triumpha a negra, triumpha a mulata. Musica, fanfarra, prestito, maxixe, samba. No nocturno na praça Onze o negro e o castanho dominam os vermelhões das caras, das carnes, das mascaras e das vestimentas alacres, vibrantes. Automoveis e bondes faiscam, illuminam, enfeitam. Tudo aperta-se, roça-se freneticamente, gostosamente. Os ranchos cantadores rompem a massa colorida, esquentada. Os cheiros doidos alvoroçam-se e embriagam. Para matar a sêde dos cantadores, dos berradores, os refrescos de côco, os gelados de limão e abacaxi. Para a fome os bôlos de negra-mina, pé de moleque, alcaçar, tapioca, manauê. Africa, Bahia, Brasil. Irrupção de benguelas, congos, carapinhas, beiçolas, ancas, peitarias. Sobre os corpos pretos a illuminação do ouro, da prata, das contas e das roupas, de onde as côres saltam em delirio, amarellas, vermelhas, azues, verdes. Musica de coreto. Bateria. Cantoria infinita, confusa, das boccas pretas, abysmaes. Melopéa plangente para palavras canalhas. Fura a immobilidade ondulante um grupo de bahianas, dansando, cantando, saracoteando a grossa luxuria negra, farejadas, seguidas por gorilas assanhados de beiços compridos, tocando pandeiros, pulando lasivos. As bahianas cheiram a cravo, a baunilha e a femea. O mondronguinho tambem fareja, aspira, entontece, empallidece, suspira, exclama:

− Se em Portugal houvesse bahianas, eu não sahia de lá!

As bahianas suspendem as saias rodadas e dansam, nos requebros das ancas, no arrando das umbigadas. A sensualidade é religiosa. O rhytmo dos ranchos é sacerdotal. É  o drama sacro, grave e profundo. Na base da magia, o culto.

O carnaval espiritualiza-se. No seu immenso manancial recebe as correntes das crenças, dos cultos, que se transformam em festas. Tambem ahi desaguam os cantos e as melodias de todo o povo do Brasil.”

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